sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Milgram, a Obediência e um Experimento de Mentirinha

Olá pessoas! Antes de começar a falar sobre o assunto, vejam o vídeo abaixo.




Tudo o que eu vou falar aqui foi pensado depois de ler um trecho do livro "Mente e Cérebro" da autora Lauren Slater¹. Esse livro fala do Top 10 de experimentos científicos do século passado, e o de Milgram é um deles. A experiência que o vídeo fala foi realmente feita e foi um choque para a sociedade que, na época, estava começando a se questionar sobre até que ponto mexer com o psicológico e físico de alguém pelo "bem da ciência" era aceitável. Vou explicar um pouquinho pra quem ficou com preguiça de assistir o vídeo. 

No meio do século passado, um cara chamado Milgram montou um esquema muito doido. Ele recrutou várias pessoas para participarem de uma falsa pesquisa sobre aprendizado que consistia em dar choques em um voluntário quando ele errava uma pergunta. Basicamente, o voluntário era um ator e não havia choques. E o que Milgram realmente queria estudar era até que ponto o ser humano obedeceria uma ordem que claramente machucava outro ser humano, tal ordem sendo dada por um cara de jaleco branco que provavelmente entende do assunto e tudo o mais. Eu ficaria muito maluca se passasse algumas horas dando choques em alguém - que talvez até morra no meio do processo - e no fim das contas era tudo de mentira. Eu que era a estudada. Eu surtaria e daria choque em alguém, só pra variar.

De qualquer forma, as conclusões que Milgram chegou são super diferentes das que eu achei (e todos os entendidos da época que ele perguntou). Sério, pensei que apenas 10% chegariam até o final. Obedeceriam. E que esses teriam algum tipo de problema, falta de empatia, sei lá. Os psicólogos da época chutaram níveis mais baixos até. Sabe qual a verdadeira porcentagem? Em torno de 65%. Digamos que, em média, a cada 10 pessoas que você conhece, seis ou sete iriam até o final. Obedeceriam. Por que essas pessoas seguiram? Por que as outras desistiram?

Depois do experimento, Milgram fazia entrevistas com o pessoal estudado. Perguntava sobre tudo. E com esses dados em mãos, tentou traçar um perfil das pessoas obedientes e das desobedientes. Tentou traços culturais, personalidade, mas nada foi conclusivo. Haviam milhares de variáveis. Por exemplo, Lauren Slater conversou com um desses caras que foi pesquisado e ele deu a entender que só desobedeceu por medo de ter um ataque cardíaco. E se ele não temesse pelo seu próprio coração, teria continuado? E se mudasse o contexto? Ao invés de um "Doutor" em seu laboratório falando pra continuar fosse algo diferente, como um adolescente incitando os outros alunos a praticar o bullying em uma escola? Ou até mesmo o silêncio obediente quando uma injustiça é feita na universidade.

As pessoas podem obedecer, também, por ter um líder comandando e não apenas por pressão de um grupo ou tradição. O fato de ter um homem aparentemente respeitável, de jaleco branco, agindo como se tivesse tudo sob controle e ele soubesse de tudo, leva as pessoas a fazerem o que ele manda. Seja por confiança, por medo de decepcionar, pressão por estar em um "experimento científico", querer honrar um acordo, entre outros. Acredito que a figura de autoridade foi importante para o experimento de Milgram, tanto que quando as pessoas, que estavam dando o choque, achavam que ele não estava olhando, muitas vezes ficavam tentados a ajudar o pobre do eletrocutado de alguma forma. Talvez nesse ponto aquela coisa que faz a gente querer ajudar os outros estivesse em conflito com as regras do que deveria ser feito.

Pessoalmente acredito que as pessoas continuariam tendendo a obedecer. O que uma mudança de contexto faria era aumentar ou diminuir o ato de obedecer ou não, mas o impulso de fazer o que pedem estaria ali. Se colocassem alguém que eu amo pra levar choque, mesmo sendo pelo bem da ciência eu ficaria de coração partido e desobedeceria. Mas se fosse aquele vizinho chato que escuta musica ruim... Então, é pelo bem da Ciência, né? x)

Também acho que, se manipulassem a população para que houvesse um pensamento comum de que certo tipo de ser humano era inferior e até fazia mal para a saúde, haveriam pessoas que não se importariam nem um pouco em obedecer. Já que não são seres humanos como nós, são tão inferiores que nem importam... coisas assim. Está duvidando? Vou dar um exemplo: Segunda Guerra Mundial. Começou assim. Primeiro colocando na cabeça da população alemã que as outras "raças" eram inferiores. Que os Judeus precisavam ser isolados. Depois, que eram os ratos da sociedade e precisavam ser controlados e exterminados. Daí pra experimentos científicos bizarros era só um passo. Afinal de contas, ninguém liga em fazer experiências com ratos.

A sociedade da época de Milgram estava se recuperando da Segunda Guerra Mundial e todos queriam entender o que levou tanta gente a contribuir para o Holocausto. Afinal de contas, não poderia haver tantos monstros assim em uma nação apenas, não é? Apesar de muita gente discordar - e ter discordado na época - a obediência pode explicar o porquê de tantas pessoas cometerem atrocidades em guerra e o experimento de Milgram pode dar uma luz nesse aspecto.

E vocês, o que acharam? Isso tudo é realmente importante? É possível definir um traço determinante nos obedientes? O que interferiu mais nos resultados: contexto ou personalidade?


Bem, se vocês comentarem, eu respondo, viu? Mas, por enquanto... Até semana que vem!


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¹Slater, L.(2004) mente e cérebro. Rio de Janeiro: Ediouro

Um comentário:

  1. Caramba! Fiquei pensativo agora. Não duvido muito que eu daria uns choques em algumas pessoas. Somos ruins, isso é fato. É inato do ser humano essa maldade. Também temos preguiça de refletir e pensar em nossos próprios atos. Por que fazemos tal coisa ou outra é algo que não costumamos nos perguntar. Estou nesse time aí também. Tornar consciente o que fazemos é um processo que precisa ser contínuo, não é algo que muda da noite para o dia, penso eu. Podemos nos basear na moral, por exemplo, para afinar nosso instrumento mental e emitir acordes em harmonia com o que é bom e justo. Apenas pensando aqui...

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